Daniel Guedes
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Ele é vaidoso, festeiro, namorador e detesta trio elétrico. O alfaiate Jaime Conserva, 88 anos, é a cara do Carnaval de Pernambuco. Mestre Jaime e seu Bloco da Bicharada já fazem festa em Salgueiro há seis décadas e este ano estão sendo homenageados pelo governo do Estado.
O carnavalesco está entusiasmado com a homenagem em vida. “É muito importante porque a gente sente o gosto da coisa”, ressalta. Mas lamenta o Carnaval que é feito atualmente. “Hoje não tem mais Carnaval. Só tem bagunça. Você não escuta uma letra bonita, não encontra um tecido bonito. Tá sem beleza. Um Carnaval sem máscaras é como circo sem palhaço. Não tem graça”. E não venha falar de trio elétrico perto dele. “Hoje o cantor fica em cima do carro e não canta para os corações apaixonados. Fica só gaguejando lá em cima”, alfineta.
Quem vê a animação de Jaime nem imagina o problema que ele enfrenta todos os anos, no período momesco. A esposa dele, Maria Lilita Tavares, 73, não é muito chegada à festa. Mas ele tem a fórmula certa para resolver a quizila. “Ela detesta Carnaval como eu detesto trio elétrico. Para ela me deixar brincar, dou um abraço e um cheiro que é para ver se ela se conforma”.
E se é para brincar, ele acredita que tem que ser com estilo. Vaidoso e talentoso que é, ele mesmo fez os 12 ternos que tem. “Não tenho mais porque não encontro mais tecido bonito para fazer um terno. E toda lapela minha tem que ter uma flor. Olhe, quando vejo uma filmadora na minha frente ou querem me entrevistar, gosto de estar bem vestido”, diz sem esquecer de providenciar um chapéu panamá e uma dentadura dourada para compor o visual.
Mestre Jaime pode se orgulhar de não carregar nas costas o peso da idade que tem. Trabalha diariamente e sozinho. Os 100 bonecos e 10 bichos foram todos feitos pelo artesão. “Como trabalho só, começo cedo para dar conta do serviço. Trabalho todos os dias. Não respeito feriado, domingo, nem nada. Eu adoro viver. Com essa idade eu ainda namoro. Queria 200 anos de vida”, afirma.
Mas se não for possível chegar aos dois séculos de vida, o carnavalesco não se incomoda. Já treina o tesoureiro do bloco, Oliveira Prado, para ser seu substituto. E já lhe deu uma missão importantíssima. “Quando eu desaparecer, Oliveira vai levar o boneco que tem as minhas feições. Os outros bonecos serão carregados também. Então estará feito o Carnaval. E se por acaso meu desaparecimento se der numa tarde de Carnaval, é o seguinte: quem gostar da festa, pode continuar brincando. Mas quem gostar de enterro, pode ir lá, me deixar no cemitério”, brinca Mestre Jaime.
AGENDACarnaval é uma época de muito trabalho para o Mestre. Além de uma agenda intensa no Recife e em Olinda, ele desfila na sua terra natal. Na quarta-feira (10), um cortejo faz reverência a Jaime pelas ruas da cidade. No dia seguinte, será a vez de um outro cortejo com presença de maracatus, caboclinhos e afoxés, sem falar na Bicharada. Nos dias 14, 15 e 16, o bloco do homenageado está de volta, dentro da programação oficial do município, sempre às 15h, partindo da Praça Benjamim Soares.





















